O reverso da eternidade- Boletim 133 – Janeiro 2015
Era um papo simples, em família. Estávamos a caminho do aeroporto. Alguém comentou sobre a descida do homem na lua, em 1969. A maioria das pessoas, neto, filho e nora, nada viram, não haviam nascido. Então, comecei a divagar: eu viajei de Avaré a Piracicaba quando a estrada ainda era de terra; vi aparecerem e disseminarem-se os rádios, telefones (para ligação de Piracicaba a São Paulo, agendava-se com a telefonista e aguardavam-se entre cinco e sete horas), a televisão, o Fax, o telex; vi o Pelé revelar-se para o futebol e testemunhei toda sua carreira, assim como a do Garrincha; vi o Brasil ser pentacampeão do mundo; acompanhei os movimentos da bossa-nova, da Beatlemania, da Jovem Guarda, as épocas de ouro das músicas francesa e italiana; quadrei a praça ao som do Serviço de Alto-falante 9 de Julho; vi a ditadura, a repressão, a queda do comunismo, do muro de Berlim, o “movimento das diretas já”, o Lula, metalúrgico semi-alfabetizado tornar-se presidente, o Obama eleito o primeiro presidente negro norte-americano, o Collor sofrer o “impeachment” depois de uma campanha vitoriosa de caça aos marajás, a ascenção sócio-econômica das classes menos favorecidas (e agora, o tombo!), o maior escândalo político do País em todos os tempos, o povo dividido pelo próprio governo, declarações públicas de ódio à classe média e às elites; vi alguns dos maiores desastres ambientais já acontecidos… e por aí adiante, muito adiante.
De repente, tive a estranha sensação de que já vi e vivi tudo. Quando vou preencher formulários eletrônicos nos quais a gente tem que “rolar” a data de nascimento, tenho a impressão de que 1945 era antes de Cristo (mas, Este, eu vejo nascer e morrer todo ano). Parece que eu sempre existi, uma estranha sensação de quase eternidade. De outro lado, minha sempre meninice me faz acreditar que ainda tenho todo o tempo pela frente para brincar com a vida, como faço agora, e que a morte não faz parte do meu itinerário nem da minha agenda. Vivo, portanto, um sentimento de eternidade ao reverso: sempre existi e não vou morrer, até que a vida me prove o contrário. E entre tantas bobagens sérias, eu quase acredito que, ao chegar a hora, vou ascender como os meus amigos Buda, Cristo, Maria, Maomé … e (quem sabe?) o Mortadela, agora.
Ou, melhor, depois! Antes que a vida me pregue uma peça, ainda tenho muito para testemunhar. E que o meu Pai me perdoe, mas não adianta me chamar que eu não subo. Não antes de ver minha terra em mãos honestas, limpas e competentes. Perdão, Pai, mas sou muito curioso e não quero perder esse grande final: a Pátria honrada, varrida e lavada, e o povo feliz. Quero a volta da esperança luzindo em todos os olhos e que todos consigamos entender que o mundo é a gente quem faz.
José Carlos Duarte Pereira
Engenheiro agrônomo, pesquisador aposentado da Embrapa. Escritor, músico e compositor pelo Portal Via Láctea – jcdpereira@uol.com.br
José,
Lindo texto.
Tenho este mesmo sentimento: sou eterna…enquanto durar.
Abraços
Patirica