Sustentabilidade sustenta o quê? Boletim nº 140

Sustentabilidade implica uma concepção de ser sociedade no século XXI, uma forma de desenvolvimento social, econômico, político, cultural num processo inclusivo que contemple, necessariamente, o ser humano.

Alcançar a sustentabilidade é uma ideia-disposição que se move em direção contrária à exploração exaustiva dos recursos naturais. Houve o despertar da consciência da necessidade de questionar o desenvolvimento capitalista. Mas, como deixar de ser capitalista predatório?

A proposta sustentável oferece alternativas para a sobrevida no Planeta num esforço de redescobrir o ser humano como parte da natureza e sujeito às leis naturais. Ser sustentável significa, portanto, a defesa do ser humano integrado à natureza e vivendo coerentemente ações de autonomia, responsabilidades e dignidade.

O Planeta está sendo transformado, nele, a vida está morrendo, ou melhor, estamos matando o nosso lar. Produzimos de forma predatória e consumimos à exaustão. E, ironicamente, ainda pensamos em deixar um mundo melhor para as novas gerações! É possível, porém, fazer alguma coisa além do discurso descompromissado. Esse fazer envolve múltiplos níveis de exigências – indivíduos, empresas, governos, nações, instituições todas – e, sobretudo, de corresponsabilidades e de maior consciência, desde pequenas correções de hábitos de desperdício a mudanças preservacionistas, para mencionar algumas ao alcance de cada cidadão consciente e conscientizado. Fazer algo pelos seres humanos sem-teto, em número cada vez mais elevado, não é uma ação de sustentabilidade, por exemplo? Que dizer dos que trabalham e o fazem em condições precárias, ameaçadoras da própria vida?

A preocupação com sustentabilidade atravessa diversos níveis de ação – individuais, grupais, nacionais e/ou internacionais – que não podem ser pensados isoladamente. Dizem respeito à estrutura da sociedade, e esta não é estática como um edifício, mas é constituída por relações de sustentação ao fenômeno social com interferências na vida pessoal de cada um de nós.

As nações precisam buscar um desenvolvimento que alce o coletivo a um patamar capaz de dar conta das diferenças internas acirradas pelas migrações dos povos e pela divisão internacional do trabalho a competir mais e mais nesta era globalizada. Pergunta-se: há dignidade sem trabalho? Alcança-se a sustentabilidade com o trabalho ameaçado? É sustentável uma sociedade onde o trabalho é tão diferenciadamente valorizado? Onde entram os critérios de justiça social?

A atenção se volta à forma dos homens se associarem para produzir a subsistência. Numa sociedade de consumo desmedido, pensar também na produção em excesso e com grandes perdas e na geração de “necessidades sociais”, muitas delas supérfluas, deve levar a ações de preservação contra o mau uso e desperdício dos recursos naturais.

Como um efeito, estamos colhendo os resultados acumulados de séculos e séculos de um pensamento cartesiano, racionalista, irracional, instrumental, construído e aperfeiçoado, técnica e tecnologicamente, para tirar proveito do desenvolvimento das nações pelo viés estritamente econômico. Sua aplicação e valorização exclusivas descolou o homem da natureza e este já não se reconhece pertencendo a ela. É como se faltasse fôlego ao Planeta e continuássemos correndo, respirando, trabalhando, adequando-nos às insuficiências de recursos não renováveis. Mais uma vez acreditando em um truque da técnica, do avanço tecnológico que nos libertará, talvez, da mísera condição humana pensada como algo que até atrapalha o progresso linear e evolutivo ascendente, buscado equivocadamente como ápice do processo civilizatório.

Nem sempre o discurso foi de sustentabilidade. Outras bandeiras em diferentes momentos da sociedade ocidental alertaram para a acumulação demasiada, a superconcentração de riqueza, a superexploração do trabalho, o trabalho forçado de mulheres e crianças, excessos contestados em meio às insuficiências, às carências, à falta de equidade social. Exemplo recente, que soa como grande clamor é, inclusive, a Encíclica Laudato sì, do Papa Francisco, na qual a crítica ao consumismo e ao desenvolvimento irresponsável se torna um apelo à mudança e à unificação global das ações no combate à degradação ambiental e às alterações climáticas.

O grito por sustentabilidade chega também a nós, indivíduos, ameaçados em nossa integridade pela aderência aos padrões de consumo no contexto da alta modernidade cheia de contradições em que vivemos.

Silvia Maria de Araújo
Socióloga, professora aposentada da UFPR.

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